Considerações de um Ignorante em Música   Leave a comment

 

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Partindo do pressuposto de uma colega minha que acredita que eu não sei nada, que eu sou ignorante vamos começar pela acepção de ignaro em nosso diálogo. Como sabemos ignaro em sua acepção original quer dizer ao contrário, pois era um povo de origem grega que de tão cultos ignoravam o labor da sobrevivência por esse motivo acabaram se exterminando. Esse preâmbulo um tanto mordaz em nossa conversa me leva a pensar na repetição cíclica da história quando uma classe alça a cultura achando que está em condições de galgá-la.

Essa classe não ignora o labor da sobrevivência, ignora, porém, os meandros que perpassavam a filigrana constituídos os técnicos do saber do apenas o necessário desconhecendo o todo que compõe o paideuma que é o nosso objetivo enquanto formadores de opinião ou quer como artistas.

É uma vergonha eu dizer isso, mas somente agora eu tive conhecimento cabal das Bachianas de Villa Lobos, que pude ouvir e compreender em toda sua extensão composicional a dimensão do homem brasileiro nas inter-relações do folclore e da sintaxe erudita; perceber o quanto o Estudo no 1 para violão traduz nossa alma brasileira na leveza e numa certa sintaxe brejeira em um diálogo intimo com um poema de Drummond da mesma fase ou um quadro de Portinari.

Por estar tão intimamente ligado a cultura é um bem que não pode ser ignorado pelos técnicos do saber, porque as futuras gerações precisarão urgência e cautela partir desses pressupostos sabendo os ler para não serem ignorantes e essa tradição se perder.

Comentei isso para introduzir o comentário do poeta Augusto de Campos no artigo de 1992 sobre Johon Cage no Suplemento de Minas Gerais que versa o seguinte comentário: “é pobreza demais para um país que passa por ser um dos mais musicais do mundo ( e talvez o seja, se pensarmos nas magníficas instituições de música popular)”; talvez porque a classe média que se considere bem informada ao ouvir Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, e tradição da Portela ouviu o supra-sumo da alma brasileira.

Augusto de Campos nos dá o, porém, o inicio de nossa conversa mas que é, também, um dos mais retardados em formação e informação musicais e um dos mais absurdamente indiferentes à extraordinária aventura da música contemporânea, que é, afinal, literalmente, a música de nosso tempo.”; e eu estendo essa ignorância a outras áreas culturais onde temos pessoas que ainda sonham em ser um Olavo Bilac em pleno século XXI ou ficar repetindo formulas estéticas dos últimos quarenta anos sem perceber que já se alterou a ampla rede discursiva onde cada gesto provê de nova variante com inúmeros atrelamentos gerando um novo rizoma.

Com isso eu passei a pesquisar em larga escala música do mundo inteiro (ententa-se ter cd completos) tanto musica oriental do irã ou do japão ou de africa além dos compositores contemporâneos.

Arvo Part, por exemplo, eu tenho a discografia, inclusive o seu magnífico concerto para piano Lamentate, onde o silêncio da densidade perfazem o auge demonstrando que a música clássica ainda não faleceu.

 

Lamentate

 

 

 

Admirável também é o russo Valentin Silvestrov: Silent Songs, um álbum de dois CDs, um ciclo de 24 canções para barítono e piano adaptando poetas ingleses e russos e franceses. Uma pena eu não saber russo para aproveitar o todo, mas mesmo assim lembra os ciclos de Schubert pela elegância da sintaxe, e um arguto pianissimo.

 

Silent Songs

Estou tentando ouvir o compositor György Kurtág e sua composição para violino e soprano que está sendo muito premiado ultimamente na Europa “Fragmentos de Kafka“, mas como nós não sabemos alemão, que no caso percebo ser necessário, pois Kurtág explora significante e significado ao dar sentido a sua sintaxe áspera que traduz a estranheza kafkiana.

Kurtág - Kafka-Fragmente

 

 

 

 

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Publicado julho 15, 2007 por drcravinhos em Uncategorized

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