Arquivo para maio 2008

EINSTEIN TEMPORAL por Eric Ponty   Leave a comment

Há certas ousadias que são movidas pelas paixões, e uma destas é escrever um ensaio sobre música, sobretudo ópera. Tenho apenas uma básica noção da linguagem musical, ou seja, da escrita mesma, e não da leitura de sua sintaxe; mas não me é um universo nem um pouco desconhecido. Seja pelo caráter de sua formação, a música é a expressão da articulação do som, logo sua representação é abstrata.


O caso que eu pretendo discutir aqui é a ópera contemporânea, e num caso mais particular, a ópera minimalista de Philip Glass “Einstein on the Beach”, onde esta articulação da música apresenta-se como um concreto elemento que irá compor toda uma estrutura temporal, isto lembra, porém um famoso diálogo de Parsifal de Richard Wagner: “Tudo aqui é espaço.”.

Philip Glass, compositor norte-americano, um dos principais artistas que influenciaram a música pop, e o rock progressivo dos anos 70, com Brian Eno e David Bowie, Terry Riley, foi aluno de Allah Rakha e Ravi Shankar, criou um estilo musical que veria a se chamar Minimalismo.

O Minimalismo nada mais é que um desdobramento da música serealista fundada por Arnold Schoenberg no início do século XX, só que mescladas as todas manifestações culturais de massa como denominaria Theodor Adorno, com estruturas reduzidas à música elementar: Melodia, harmonia, ritmo e timbre, ligadas a uma formula Matemática de composição.

Philip Glass considera-se basicamente um compositor de música para teatro, embora tenho composto músicas também para filmes como Star North, Miskima, Koyanisqatsi, Powaqqatsi, Uma Breve História do Tempo, Um Tiro no escuro, Animal Mundi, seu álbum mais popular é “Song from Liquid Days” gravou com Ravi Shankar “Passages”, seu mestre de juventude, e o seu álbum mais melódico.


No campo operistico e dramático, Philip Glass escreveu o drama de ficção cientifica “1000 Airplanes on the roof”, as óperas Satvagraha, Akhnatem, The Making of Representative for Planet 8, The Fall House Usher, Hydrogen Jukebox, Cristóvão Colombo e sua ópera mais famosa Einstein on the Beach de 1976.


Einstein on The Beach foi encenada no Metropolitan Ópera House de 21 a 28 de novembro de 1976 sobre a direção de Robert Wilson.

Eisntein on the Beach não é uma ópera de estrutura convencional, com características que estamos acostumados, mas uma ópera-teatro, sem árias, onde a palavra é falada ou onde também a estrutura da música é falada por números que expõem matematicamente à composição que está sendo executada.


A ópera é dividida em Kee play 5, com quatro atos e subdivisões de cena, o leitmotiv da ópera é o violino, instrumento do qual Albert Einstein tocava e no libreto não a qualquer menção ao cientista, mas o que nela se discute são as trivialidades do mundo contemporâneo; ou seja, a personagem principal é a Teoria da Relatividade.


A ação principal da ópera é a estrutura musical Matemática, sua sobreposição, e superposição rítmica é que constrói e permeia toda ópera sendo a sua principal personagem, esta se constrói dentro de nossa sensibilidade auditiva, como um elemento real e concreto.


Se anteriormente à ópera era a expressão da ação dramática sobreposta à expressividade sonora, esta se esvaziou de seu sentido “clássico”, o mundo perdeu a sua aura”, onde esta mesma ópera tinha um sentido de legitimidade da narração individual ou coletiva de um grupo.


Em Einstein on the Beach como anteriormente nominado é o tempo sua estrutura musical operistica, se a música anteriormente nos levava a distração ou a representação do ideal do belo, somos co-personagens do tempo real; assim impossível abstrairmos a noção do mesmo porque esta real temporal está moldada na nossa sensibilidade auditiva.


O narrador da ópera é um motorista de táxi real que Philip Glass conheceu, e convidou para narrar os textos, que não expressam nenhuma dramaticidade pois a trivialidade da narração demonstra que nossa época perdeu sua aura.


Einstein on the beach termina com o narrador onisciente narrando o amor de um casal, de uma poeticidade trivial: ”Finalmente ela falou “ você me ama, John ?”, Ela perguntou “. Você sabe que eu o amo, bem. “, que ele respondeu. “ Eu o amo mais que língua pode contar. Você é a luz de meu filho da vida, minha lua e estrela. Você é meu tudo. Sem você não tenha nenhuma razão de ser “; ou seja, de uma forma consciente estamos diante desta construção, como personagens vindos de uma gêneses, uma vez que fomos seus co-personagens temporais da estrutura musical durante todo o desenlace da ópera.

Creio que dentro de um certo prisma Einstein on the beach encerra um certo ciclo da ópera inaugurado pelo Parsifal de Richard Wagner, que mesmo após a diluição dos Deuses no “Anel dos Nibelungos” para o seu renascimento cristão em Parsifal, numa ópera sem mitos pagãos( não custa lembrar que Mario de Andrade disse que a dramaticidade operistica do século XX só poderia ser representada por uma ópera Bufa, com personagens cotidianos e de uma ordem trivial, prisioneiros de uma teoria Matemática musical.

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Publicado maio 9, 2008 por drcravinhos em Uncategorized